
Hugo Caldas
O título que ostenta esta croniqueta foi tirado do inicio de uma peroração de Vicente de Paula Holanda Pontes, mais conhecido como Paulo Pontes em uma noite memorável de muita chuva, o Santa Roza lotado e impaciente. Era noite de estreia de um dos costumeiros festivais de teatro da Paraíba e Paulinho foi destacado, pela sua bela voz de locutor, para dizer algumas palavras a fim de acalmar a plateia. Falou por mais de uma hora e ninguém se deu conta.
Paulo Pontes começou sua vida artística como produtor de programas radiofônicos na Rádio Tabajara, da Paraíba, passando depois a colaborador do jornal "A União".
Como ator ele teve sua iniciação no velho e querido Teatro de Estudante, com participação na peça “Os Inimigos Não Mandam Flores, de Pedro Bloch”.
Se muda para o Rio de Janeiro onde participa, juntamente com Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, da fundação do Grupo Opinião e escreve o texto de estréia, o show "Opinião", em 1964.
Já em 1969, ingressa no grupo de dramaturgia da TV Tupi. Em 1970 escreve o roteiro do show interpretado por Paulo Gracindo e Clara Nunes, "Brasileiro: Profissão Esperança".
Em 1971, se torna nacionalmente conhecido com a peça "Um Edifício Chamado 200," espetáculo que assisti no Teatro Tereza Raquel, se não me falha a memória, protagonizado por Milton Moraes, no Rio de Janeiro, e por Juca de Oliveira, em São Paulo. Com esse texto ele dá uma ressuscitada na decadente comédia de costumes carioca.
Em 1972, no Rio de Janeiro, encena a peça "Check-Up", com direção de Cecil Thiré. No ano seguinte, sob direção de Flávio Rangel e com Jorge Dória no papel central, estréia "Dr. Fausto da Silva".
Na televisão, Paulo escreve juntamente com Max Nunes, Oduvaldo Viana Filho e Armando Costa, "A Grande Família," baseada, no seriado de TV norte-americano "All in the Family," e inicialmente dirigida por Milton Gonçalves (1972) e por Paulo Afonso Grisolli (1973-1975). Em 1977, estréia seu premiadíssimo espetáculo, "Gota d'Água", em parceria com Chico Buarque, e com o qual ganhou o prêmio Molière de melhor autor.
"Paraí-Bê-A-Bá" foi o título inventado por Paulo Pontes para um texto que escrevera para um espetáculo no Teatro Santa Roza. A coordenação do espetáculo foi de Raimundo Nonato e a direção de Elpídio Navarro tendo como assistente Rubens Teixeira e o próprio Paulinho. Infelizmente nunca tive a oportunidade de assistir ao espetáculo visto já morar em Recife. Uma pena. "Paraí-Bê-A-Bá," como se pode deduzir pelo título, era uma cartilha sobre a Paraíba, seus filhos, suas glórias e sua história.
Autodidata, considerado como um dos homens mais inteligentes e cultos do País, Paulo Pontes viveu 8 anos com a atriz Bibi Ferreira, que o acompanhou até a sua morte, aos 37 anos, vitimado por um câncer no estômago. Estava no Rio à época e decidimos, eu e um grupo de seus amigos ir até o seu apartamento fazer-lhe uma visita, talvez uma despedida. Fomos dissuadidos do nosso propósito por Bibi que se deu ao trabalho de nos encontrar no saguão e nos pediu que guardássemos na memória a figura de Paulinho em perfeita saúde. "Ele está muito debilitado", disse-nos ela. E assim foi. A imagem que guardo até hoje dele é de um carnaval em que nós dois brincamos juntos na Paraíba em 1971. Ele havia acabado de chegar do Japão inconformado porque lá não existia o menor resquício de festa momesca.
Ninguém é profeta em sua terra. Vejo no Blog do Pedro Marinho que passou em brancas nuvens a data do nascimento de Paulo Pontes, que se vivo estivesse teria completado ontem, segunda-feira dia 8, setenta anos. Nem mesmo a direção da Fundação Espaço Cultural, cujo teatro tem o seu nome, lembrou de fazer alguma homenagem, nem que fosse uma pequena nota nos jornais. A Paraíba é mesmo muita ingrata com os seus filhos ilustres. O meu velho amigo Paulo Pontes foi esquecido na própria terra que tanto glorificou. Completou 70 anos, e não ganhou sequer um bom dia. Deixa estar, tenho a mais absoluta certeza de que ele está lá no céu, onde deve ter entrado que nem Irene, sem pedir licença.

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